postagem fixa - NOSSO EGO

Fala-se que o papel aceita tudo o que se lhe é escrito. Você pode desenhar, pintar, escrever ou até amassá-lo e jogar na lixeira. Mas não vou "criar" uma identidade num falso "self" só para extravasar minhas fantasias ou vaidades. Pois que até o papel que escrevemos no Microsoft Word é produzido pelo computador que nos oferece as cores, fontes, vírgulas, pontos finais, reticências, imagens, temos ainda como real a nossa mente a criar o que bem entendemos, inclusive uma falsa idéia do que realmente somos, pois no final das contas podemos ser autor de nosso próprio personagem. Bem disse Mario de Andrade: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Como sempre concordo plenamente, pois rótulo nem sempre é sinônimo de bom produto. Vejo pessoas que usam de sua página para contar a todos, suas histórias vantajosas, suas jóias, coroas e galhardões, casas ou castelos, origem, nome, seus postos e etcs e tals...
Lamentável termos que perceber que também no mundo virtual as pessoas não fogem as regras e muitas vezes por gentileza os aceitamos. Porém, a maioria dos blogueiros é despretenciosa, não espera alcançar fama ou formar opiniões. A maioria tem conteúdo sim. Mas como temos a liberdade de ter nossas opções, o que nos cabe é navegar por outros mares, ou espaços. Aqui eu escrevo o que gosto, sem frases de efeito porque nem as sei criar mas faço de maneira mais coloquial sou sincera nisso e não sou intelectual, ainda bem que não carrego essa responsabilidade que às vezes pode até ser penoso e nem sou escritora de nada mais a não ser das minhas próprias idéias e na minha simplicidade, nem tampouco tenho a pretenção em me rotular de "escriba". E no mais é bla bla bla e panelinha de adulação, pois a política é ter o mesmo retorno. E se conseguiu ler-me até o final, simbolicamente me faço flor para você em sinal de agradecimento, mesmo porque desativei os comentários. Sua presença já me basta e me faz feliz.

19.12.09

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.


José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

9.12.09

Sombra


Quantas vidas em frente
da minha vida. Procuro nelas o meu reflexo,
e perco-me em cada rosto que encontro. Peço
ao céu uma névoa, para me esconder
de quem me rouba a alma; e a luz brilha,
mais intensa, para que todos se precipitem
sobre mim, e me tirem cada pedaço
do que sou, para o atirar a quem dele
precisa. Se ao menos o espelho
me guardasse a imagem; ou a janela,
ao abrir-se, me desse um impulso de ave...
Mas só existo para quem não sabe
que existo; e só falo para fugir de quem me ouve,
como se fosse a sombra de que me liberto
quando a sua sombra me prende
ao vidro.


Nuno Júdice

Foto:Pietr@





Veja também Erotismo e pornografia postagem feita em 05/03/09


3.12.09

Tuas coxas


É neste ponto
das tuas coxas
que o meu pescoço
implora a forca

Mas dás-lhe o trono
da luz da sombra
num sorvedouro
de rosas roxas

Agreste gosto
de húmida polpa
o que dissolvo
dentro da boca

Eis num renovo
mágica força
rei me corôo
em tuas coxas


David Mourão-Ferreira

28.11.09

Amor é síntese

Por favor não me analise,
Não fique procurando cada
ponto fraco meu,
Se ninguém resiste
a uma análise profunda,
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro,
carente,
Todo cheio de marcas
que a vida deixou.
Vejo em cada grito de
exigência
Um pedido de carência, um
pedido de amor.
Amor é síntese,
É uma integração de dados,
Não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
Ninguém consegue abraçar
um pedaço,
Me envolva todo em seus
braços
E eu serei perfeito, amor.

Mario Quintana

22.11.09

O Amor Natural



Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram. (...)
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade, in “O Amor Natural” (1992)

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